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Mulheres Inspiradoras: a leitora

Gabriela sendo Gabriela (Foto:arquivo pessoal)


Nonada, uma bagatela, uma insignificância, inaugura as páginas de “ Grande Sertão: Veredas” , obra que reinventou a língua portuguesa. Nas montanhas e sertões das Minas Gerais, Guimarães Rosa narra uma saga de amor e ódio, crueldade e coragem, que de insignificante não tem nada. Cabe ali um mundo inteiro. Nonada, uma palavra que significa “pouco”, quer dizer tanto, ao ponto de estar impressa na pele de Gabriela. Ela mesma, tal qual a obra-prima de Rosa, carrega em si um mundo inteiro.


Nasceu em São Paulo e, assim como a cidade que acolhe a todos, traz em si pedaços de outras geografias. Tem metade de seu DNA oriundo das montanhas das Gerais, tal qual o escritor. De lá, herdou a doçura, a sensibilidade, a vocação para o abraço, o viver entrelaçando letras e encantamentos. A outra metade veio do Peru, um país que une mistério e história, a floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes.


Filha de um pai com talento para a alquimia de sabores e de uma mãe que mistura em si ciência e afetuosidade, ela tinha que ser do mundo. Fala cinco línguas e ainda domina como poucos o idioma universal da solidariedade, o que nos faz humanos em qualquer cultura, em qualquer parte do planeta. Domina, como poucos, a arte da empatia.


Por saber o que dizer formou-se jornalista. Trabalhou como repórter e apresentadora nas TV Record, na TV Cultura, na TV BandNews. Envereda-se pelo cotidiano de milhares de pessoas através das ondas do Rádio como apresentadora da Band News FM, permitindo que sua voz transporte os fatos para alcançar o Brasil e o mundo.


Formou-se gente bem antes, na convivência com irmãos, cúmplices de sua história, com as avós, sábias leitoras de outros, nas leituras que fez por si mesma ao descobrir que ler um livro não significava se fechar para o mundo, mas se abrir para outros.

Ainda que tenha na comunicação sua vocação e profissão, ainda que faça da voz seu instrumento de trabalho, a fala não é o que faz dela quem ela é. Gabriela Mayer enxerga. Não do jeito como a maioria de nós vê, ou apenas olha o mundo. Gabriela Mayer o enxerga em todas as suas nuances, belezas e horrores, generosidades e crueldades, nas sutilezas e nas enormidades, nas injustiças e conquistas. Acostumou-se a reconhecer a beleza e a fragilidade treinada pelos livros, milhares deles que cruzaram seu caminho desde que descobriu a palavra. Admira com devoção, as qualidades que moram naqueles que têm a sorte de dividir sua existência com ela. Gabi sempre tem sorrisos abundantes e palavras acolhedoras para partilhar.

(Foto: arquivo pessoal )

Casou-se, dando ao amor o tempo que ele merecia. E soube reconhecer quando o tempo acabou. Vestiu-se de coragem e se separou. Encarou os temores do recomeço, sentindo na pele todo o peso que ainda hoje recai sobre as mulheres que decidem sair de uma relação. Se sentiu solitária, óbvio.

Entretanto, ela nunca esteve só. Tinha ao seu lado amigos, família e Clarice Lispector, Chimamanda Ngozi Adichie, Cora Coralina, Adélia Prado, Carolina Maria de Jesus, Han Kang, Scholastique Mukasonga, Annie Ernaux, entre outras. Fez casa nova no apartamento alugado, mobiliado por uma poltrona, uma estante e centenas de livros. Já que casa é onde o coração está, bastava. Havia ali alimento para a alma e um lar para as histórias, as fictícias e as reais, de tanta gente (de papel e de carne e osso) que ela abriga.


De olhos abertos ao novo tempo, Gabriela fundou com amigos e colegas a Rádio Guarda-chuva, a primeira rede de podcasts exclusivamente jornalísticos do Brasil. É claro que ela, soterrada de enxergar a realidade no dia a dia das notícias como ofício, optou por usar a voz para revelar a quem ouve as palavras mais lindas dos livros mais lindos no podcast “ Põe na Estante”. Tão íntima da palavra escrita, é também colunista de literatura e gênero na Revista AzMina.

Ela, que tem nome de personagem de livro, se tornou referência em literatura, colecionando prêmios e fãs. Viu um novo amor chegar, vê o passar das estações, a constância das transformações. Enxerga novos grandes autores surgindo, a literatura semeando esperança em tempos tão brutos. Felicidade para Gabriela é poder atravessar os dias lendo um livro atrás do outro, e compartilhando o que leu, porque ler e compartilhar fazem dela o que ela é. ​


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