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Marina Smith


Apartamentos já foram cenários de histórias eternas. A casa de Mônica, por exemplo, é inesquecível para os fãs deFriends. Um apartamento em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, há muito tem chamado a atenção de milhares de pessoas.

As cenas vividas ali pela protagonista são cheias de humor, com toques de drama e, vez por outra, suspense. Estrela a produção diária de audiovisuais Marina Smith.

Não que ela um dia tivesse sonhado em abrir a porta de sua casa para o mundo e interpretar um sem fim de personagens. Ela encarna a ela mesma, nas dores e delícias de viver uma quarentena de quase 2 anos em meio à pandemia da Covid-19.

Marina não sonhou ser atriz. “ Sonhei ser veterinária quando criança. Depois, cogitei me tornar advogada porque achava chique ver as mulheres bem vestidas nos filmes. Aos 14 anos me decidi pela publicidade. Criei um produto e uma campanha na escola e achei o máximo”, conta ela. Por um tempo a gaúcha trabalhou em uma agência e foi feliz lá. Até ser empurrada para uma carreira totalmente nova. Virou blogueira.

A ideia de registrar na internet seus dilemas e descobertas nasceu em parceria com as amigas. Após muitas experimentações começou a registrar as novidades cosméticas que trazia da farmácia. Virou cobaia nos próprios testes para fazer um esfumado perfeito nos olhos, distribuindo com graça e de graça dicas para quem, em casa, queria aprender a traçar um delineado, ou aplicar o iluminador. De repente, naquele plot twist da vida real, o 2Beauty, que era diversão, foi alçado a ganha-pão. “Não era o plano. Era um hobby. Em 2010 quando o blog começou uma loja de cosméticos entrou em contato comigo pra colocar um banner no 2Beauty. Entendi que podia ganhar um dinheiro extra. Em 2012 notei que poderia me sustentar com isso. Foi tudo gradual. Blogs estouraram e empresas se interessaram. Minha avó até hoje não entende como ganho dinheiro na internet. Meu negócio é falar do que gosto. Muita gente me acompanha por causa disso e, por causa, disso as empresas querem ter a imagem delas anexada a minha”, explica.

Aos poucos, por tentativa, erros e acertos, o conhecimento da publicitária no mundo da beleza foi crescendo. Era novidade no Brasil ter uma mulher, jovem, bonita, inteligente, consumidora real, contando para a audiência sobre um produto, um lançamento aguardado, como se estivesse num café batendo papo com as amigas. O mercado de beleza viu nela uma oportunidade para chegar a novos consumidores e o apartamento de Porto Alegre virou destino de muitas, muitas caixas.

Um dia, conversando sobre um demaquilante bombado ouviu da mãe, empresária em farmácia de manipulação, com ar de indignação: “ você sabia que eu faço demaquilante, né” ?! Nesse caso, o santo de casa fez milagre! Em 2012 mãe e filha lançaram juntas a própria linha. Outra inovação para a época. “ Os primeiros produtos foram o tal demaquilante, solução higienizadora de pincéis, gel fortalecedor pra sobrancelhas, primer e gotas secantes para esmalte. Apresentamos a ideia e começamos a vender a marca na Sephora”, diz Marina.

De lá pra cá a linha Marina Smith cresceu, ganhando preciosidades como a máscara “ Nada sem meu Vinho”e o famoso Amarelinho, pó para selar o corretivo. “ Me impressiona que até hoje a marca exista e se mantenha, com clientes fiéis. A gente lança em média dois produtos por ano. Temos vários lançamentos engatilhados e 3 novos em fase de testes. Entre as novidades há coisas inspiradas no Brasil, com ingredientes típicos”, adianta ela sem autorização da sócia.

Quando a pandemia começou, Marina e o mundo ficaram com a vida em suspenso. Ao contrário de muitos (maus) influenciadores, ela seguiu à risca as recomendações das autoridades de saúde. “Eu já era caseira. Não fazia sentido começar a sair loucamente agora. Penso que o que a gente mostra encoraja as pessoas a fazer. Tem gente que viajou mais na pandemia do que eu nos dois anos antes. Eu penso no que posso fazer para ajudar quem está em casa como eu”, reflete. É com essa fita métrica, do respeito e da solidariedade, que a história vai medir a estatura de Marina em tempos de luto pela covid-19.

Como é cuidar sem poder tocar? Foi a pergunta que, talvez inconscientemente, ela tenha se feito ao produzir sozinha comédias e dramas para animar a vida de quem a acompanha sem sair de casa. Teve clube do livro, sinopses das estreias nos serviços de streaming, dicas de séries, de quebra-cabeças, de lençóis e fones de ouvido, de pratos fáceis de preparar. Doses picantes de autoconhecimento, com os testes de vibradores (esses não registrados em vídeo) “As pessoas ficam cheias de dedos com vibradores. Às vezes recebo DMs (mensagens pelo aplicativo Instagram) dizendo que é ridículo. Mas para mim é normal, natural se masturbar. E em tempos de pandemia o que fazer? Subir na parede? As pessoas têm que se conhecer. Não deveria ser polêmico”. Sensualidade rola também na produção intensa dessa heroína moderna da sétima arte para telinhas. Nem ela imaginava que um dia ia aparecer “ em público” vestindo calcinha e sutiã, em fotos lindas e inspiradoras. “Eu jamais imaginei fazer um job de lingerie. A marca me procurou. Eles foram muito bacanas e me deixam a vontade para fazer o que quiser, do jeito que eu quiser. Eu uso só o que gosto e me sinto bem confortável para mostrar. Todos temos questões a respeito de nossos corpos. Mas me sinto à vontade porque gosto dos produtos e, olha só, isso melhorou minha autoestima. Coisas que me incomodavam no meu corpo antes não incomodam mais. Deixaram de ser questões pra mim”.

Marina é uma morena de cabelos pretos e sorriso fácil, com mais curvas que o Guaíba. Torcedora do Grêmio, não tão fanática hoje, que gosta de mergulhar nas histórias alheias e de contar boas histórias também. Cenas com perucas, vilãs cheias de maldade, rainhas empoderadas em suas coroas, um romance épico com um galã-travesseiro estrelaram essas produções caseiras líderes de audiência. Com roteiros, maquiagem, figurino assinados por Marina Smith. “Sou uma agência inteira. Eu queria ter mais gente para ajudar com a câmera, fazer movimentos diferentes, mas por enquanto sou só eu”.

A criação com doses profissionais de criatividade foi remédio num tempo de tanta doença. Claro que ela também sentiu a solidão, a ausência da família, dos amigos, dos abraços.

“Tive ataque de ansiedade pela primeira vez na vida. Na primeira crise fiquei apavorada, pensei que ia morrer. Sentia o braço esquisito, palpitação. Hoje sei como lidar. Começo a me sentir mal, paro, relaxo, respiro bem fundo e passa. Tenho meus dias de não querer levantar da cama. Tem dia que não quero fazer nada. E aí opto por não aparecer muito nas redes sociais. Não me exponho só para agradar os outros na internet”.

E mesmo tendo tanto cuidado, mesmo pensando com apreço em cada post, ainda é vítima dos excelentíssimos juízes de plantão da internet. “ No geral os haters não perturbam. Raramente. Mas de vez em quando chega um comentário assim: “Você não acha que está velha demais pra fazer palhaçada na internet?” . Não, não acho. A maioria das pessoas me segue há anos, são fiéis. Pensam mais ou menos como eu. Não tenho seguidora que faz campanha contra vacina. Tento fazer um conteúdo bacana, que acrescente a cada um. Gosto de dar informação que possa ajudar e melhorar o dia”. Quem passou a pandemia na companhia de Marina teve centenas de dias melhorados por ela e jamais vai esquecê-la.

No instante em que o encarceramento no apartamento de Porto Alegre acabar ela quer abraçar a família, rever os amigos, almoçar fora com tempo e amor para distribuir. No filme da vida real talvez seja mesmo impossível entrar em contato com as cenas de Marina sem ser transformado. Com ela, o final é sempre feliz.

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